Lobotomia, Sim!

 “Faz meses que me enclausuraram aqui, a dúvida corroe minha mente, não tenho notícias, muito menos explicações. Estou cercada de pessoas insanas, sem nem mesmo ser uma, permaneço dopada pelos medicamentos desnecessários, os quais forçam pela minha goela, tive minha liberdade restringida sem me falarem o porquê.  Sinto falta da minha casa, de conforto, não sei quanto tempo meu corpo irá aguentar, mesmo sem ser senil, não sou mais uma jovem, minhas mãos trêmulas mal sustentam o peso de um copo d’água. Nunca tive graves problemas de saúde, como resultado da desnutrição tudo parece pior, me sinto constantemente fraca, estou tão magra que parece que eu posso quebrar ao meio a qualquer momento. “

A mulher falava histérica, soluçando entre suas frases, mas a enfermeira, já acostumada com esse tipo de cena, apenas largou a bandeja com uma gororoba insossa grosseiramente no chão e empurrando com o pé pela entrada. A funcionária bufa e principia a acender um cigarro, tragando longamente e então expirando a fumaça no rosto da mulher:

“Olha querida… ‘” Ela fala num tom afetado “Se nós realmente, ao menos nos importássemos, em liberar loucos como você, esses pequenos estorvos da sociedade…” Ela se interrompe, bate a cinza do cigarro na comida da mulher pela portinhola e sai andando pelo corredor, com os quadris largos bloqueando parcialmente a vista. 

A mulher se aproxima da comida e cutuca a pilha de arroz velho com cinza de cigarro e outros ingredientes asquerosos, franzindo o rosto com nojo enquanto empurra a bandeja com um chute pela portinhola e grita em plenos pulmões:

“EU NÃO PERTENÇO A ESSE LUGAR!” A pobre mulher chutava a porta e chorava pesarosamente no chão. ‘Eu só quero ver a minha família…” 

Atraídos pelo alvoroço, um enfermeiro de porte grande, segurando uma seringa com um liquido de procedência duvidosa e atrás dele um médico. Diferente dos outros, o médico trajava um par de calças sociais e sapatos bem lustrados, tinha pele pálida e um sorriso férreo, provocou arrepios na mulher.

“Bom-dia, Dona Norma…. Pelo jeito não está gostando da sua estada aqui.” Ele amplia o sorriso de forma macabra, aproximando- se da mulher e esticando a mão ´para ela alcançar.”Oh! Mas que indelicadeza minha! Permita eu me apresentar decentemente! Eu sou o dr. Amos Bates, e vou estar como responsável por você, durante o seu…” Ele faz uma pausa e seus olhos formam uma expressão que o torna ainda mais lúgubre ”tratamento…” Seu sorriso parece aumentar, como se já não estivesse sinistro o suficiente. ”Bom, me acompanhe até o consultório e discutiremos isso.”

Ele se direciona até a porta, tirando a chave do bolso:

  • ”Arnaldo, por favor leve a nossa convidada de honra, delicadamente até a meu consultório, sim? ” O funcionário arrasta a mulher, nada delicado até a sala do tal doutor.

A passagem para a sala contornava corredores brancos lotados de portas, com um aspecto de abandonado e imundo, parecia impossível saber para onde se estava indo, uma curva errada e você ficaria preso o resto da vida sem chegar em lugar nenhum.  A sala do diretor ficava fora da área branca, onde o ambiente já parecia minimamente habitável, logo a paciente foi conduzida a uma grande porta, com a superfície polida e um cheiro forte de madeira podre, onde uma placa de ouro brilhante reluzia com o nome do doutor Amos Bates. Ela encarou a porta e foi empurrada para dentro, o escritório era impecável, moveis bem lustrados, tudo organizado e uma cadeira vermelha de espaldar alto se ressaltava atrás da mesa no centro da sala, a sua frente duas cadeiras velhas e com um aspecto desconfortável.

             O enfermeiro intitulado Arnaldo amarrou norma em uma das cadeiras, deixando-a de frente para o doutor, que mantinha os olhos fixos nela, com uma expressão que parecia de fascínio. Logo o doutor começou a discursas sobre tratamentos em pacientes anteriores que foram de grande sucesso;

”Desde que me tornei principal médico e diretor do Brookline o índice de mortes por suicídio caiu e as cirurgias passaram a surtir efeito-” Ele continuou discursando sobre sua grandeza profissional e como ele era um exemplo no seu ramo e extremamente importante, enquanto Norma o encarava aflita, pois queria saber por que diabos sua família havia lhe aprisionado ali. Não podia acreditar que seu querido filho pudesse ter ao menos cogitado a possibilidade de interna-la, não…. Não seu querido Tom…. Esse pensamento era doloroso demais para seu pobre coração, que apertava o braço da cadeira em um estado de ansiedade e nervosismo. Quando o Doutor Bates terminou seu discurso narcisista, começou a falar sobre a estada de Norma- ”Ah! Minha querida, não se preocupe, seu marido e seu pai lhe internaram aqui apenas por que te amam…. Você acha que foi fácil para eles te colocarem uma instituição tão cara e tão onde da sua casa? Deve ter sido um grande dilema para eles, considerando que te amavam, não tinham mais condições de cuidar-te em casa…-” Ele abriu um sorriso que fez calafrios percorrerem a espinha da paciente.

”Seu tratamento de histeria psicótica vai ser um sucesso, nada que um bom eletrochoque não resolva, ou talvez uma boa lobotomia- ele fez uma pausa e coçou o queixo enquanto pensava ” Se bem que…. Por que não os dois!” Ele gargalhou e Norma se encolheu na cadeira.

”Mas…. Meu filho não se posicionou sobre minha internação? Quer dizer, ele sempre foi grudado comigo, até morava comigo e com o meu marido depois de adulto…. Não entendo como ele pode ter permitido esse diagnostico errôneo de histeria! E veja doutor, meu casamento com Howard sempre foi satisfatório, deve ter sido algum erro de diagnostico…. Oh, doutor, não me entra na cabeça que meu querido Tom permitisse uma coisa dessas…. Ao menos posso ligar para ele em casa?” – Dr. Bates endireita a postura na cadeira, observando a ficha com um olhar impassivel, aparentemente Norma havia dado a luz á uma criança, a qual nasceu e morreu em questão de dias. Anotações feitas pelo doutor diziam que Norma permaneceu agarrada ao corpo do recém-nascido, tratando-o como se estivesse vivo, amamentando e ninando a criança pela casa, deitando-o no berço, como se ainda estivesse vivo.

            Mas na ficha, realmente, não havia nenhum detalhe sobre um filho que havia crescido ou ao menos sobrevivido seus primeiros meses, o marido mencionou a enfermeira que ela havia dado à luz a uma menina saudável, mas que desapareceu horas após o parto e nunca mais foi vista, apenas seu corpo foi encontrado no poço, uma manhã de domingo em que a servente do casal foi buscar água pela manhã. 

             Dado as informações contraditórias e nenhuma menção de mentira compulsiva em sua ficha, o Dr. Bates ficou atônito com o estado do quadro da mulher, achando melhor ignora- la, afinal, podia não ser mentirosa, mas ainda assim estava internada em um manicômio.  Decidiu que conversaria com a mulher, tratando-a como uma louca e então ligaria para a família no final da tarde para confirmar sobre essas informações mal anotadas.

             A conversa correu normal, para o parâmetro psiquiátrico da mulher, que em momentos parecia que estava paralisada e em outros que havia desaprendido a falar, balbuciando frases e palavras sem contexto ou sentido. No final da conversa o Dr já estava impaciente com a mulher que passou a berrar descontrolada, mandando Arnaldo trancafia-la de novo, a mulher se esperneou até uma enfermeira dopá-la com sedativos fortes, com os quais a equipe de enfermagem pode carregá-la facilmente de volta a seu quarto.

            O médico massageava as têmporas enquanto a mulher era carregada, ele se levanta e pede uma xicara de café a secretária, sentando-se na borda da mesa e folheando a ficha da Sra. Hayworth com mais cuidado, buscando pelo telefone da casa.

            A mulher que trouxe seu café tinha um rosto enrugado, que fez o homem pensar em demiti-la e contratar alguém mais jovem e mais bonito, com o café nas mãos voltou a sentar-se na cadeira vermelha, que dava a ele um ar de poder, revirou a ficha e acabou por achar o telefone, o qual pois se a discar:

”Olá, Boa tarde, eu gostaria de falar com o Sr. Howard Hayworth, por gentileza.” – Ele tamborilando os dedos agitados na mesa, quando uma voz feminina o responde:

”Ah! Sim, Boa tarde, só um instante, sim? Vou chamá-lo no escritório” – Alguns segundos se passam e logo o Sr. Hayworth está no telefone- ”Boa tarde, quem fala?”

Olá sr. Hayworth… aqui quem fala é o Dr. Bates, do brookline.

”Ah, sim o que deseja?” – O homem responde ríspido.

”Preciso confirmar algumas informações sobre sua esposa…” O médico afirma em um tom exigente.

”Sim…? Diga”

”Afinal de contas, vocês têm algum filho? ” Dr. Bates fala com uma indelicadeza

”Nenhum que tenha sobrevivido a infância”

”Mas e o tom? Ela só fala dele, é adotado? Algum parente distante? Aprendiz ou o que?”

”Não há um tom. Por isso mesmo ela foi internada.” O patriarca desliga o telefone com grosseria, irritado, por já ter explicado isso mais de uma vez aos funcionários do manicômio. Do outro lado da linha o Dr estava decidido, lobotomia sim!

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