Arquivo Richter. O Depoimento de um Louco.


Em minha história será difícil acreditar, bem sei pois a vivi e duvido de mim mesmo. No decorrer do tempo desde então sinto que a sanidade já não mais faz parte do meu caráter. Não só me forçaram a acreditar que estava louco como o medo deveras tornou a insalubridade de minha alma instável.

Do início

Poucos momentos sãos me restam agora, pois os remédios, que sou obrigado a consumir, me deixam em um estado completo de letargia e indisposição. Se fosse velho meu corpo não aguentaria as condições de tortura pelas quais sou infringido.

Eu sei que o ser retornará por mim, agora só falta esperar, mas o único pensamento que me tortura é de que morrerei jovem. Estas celas não me trazem proteção alguma, só impedem que eu fuja.

A casa velha

Costumava morar em uma casa velha, herdada pelos meus antepassados. Meu tio recebeu a casa no testamento de meus avós, mas achava injusto eu não poder morar nela, pois sabia que eu idolatrava a casa e suas memórias. Ele sempre foi um homem bom, trabalhava no ramo psiquiátrico um  homem importante. Uma vez ele  mesmo me levou até o hospital no qual trabalhava, mal sabia eu que tal cárcere seria minha ruína.  

O lugar cheirava a mofo, o piso rangia e parecia ter poeira impregnada nos móveis, mas era sobretudo extremamente aconchegante.

Lá eu havia nascido. Lá eu havia crescido. Eu me divertia correndo em seus largos e extensos passadiços, cansava de me esfolar caindo a correr no jardim florido de minha mãe. A Madre possuía um enorme e belo jardim, em minha mente pequena, por ser apenas uma criança, pensava que o jardim possuía todos os exemplares de plantas já descobertos pela ciência.

O quintal

O quintal parecia um matiz, de tão colorido. Detinha Petúnias, Rosas, Lanternas Chinesas, Alliums, Angélicas, Azaleias, Camélias, Lírios, Copos de leite, Bougainvillias, Dentes de leão, Malvas, Gerânios, algumas ervas para chá e temperos. Eram inumeráveis flores, um jardim realmente belo. Mas infelizmente a última vez em que me esfolei foi dada a outro fator, que não uma mera brincadeira, e sim correndo do pesadelo que aterrorizou minha vida.

Essa trágica desventura marcou meu ego frágil, como um ferro em brasa queima a pele humana. Era um hábito meu, quando criança, sentar em frente a janela e ler durante tardes tempestuosas. Eu chegava da escola, ia para o meu quarto e terminava a tarefa tão rápido quanto descia as escadas para ler.

A noite

A noite em que tal evento ocorreu era tão escura e nublada que eu duvidava da existência de estrelas. A sala estava relativamente clara, iluminada por um pequeno abajur e pela luz dos raios lá fora, embora a falta de iluminação não tivesse causado maiores incômodos. Meus pais trabalhavam até tarde, não era comum pra mim ter medo de ficar sozinho. Mas nesta noite em especial eu gostaria que eles tivessem chegado mais cedo.

A sala empoeirada se mantinha impassível quanto a chuva, os móveis de mogno escuro perfumavam o ambiente com um cheiro gasto e amadeirado, o tapete velho exaurido de sua função, nada mais que acumular poeira, deslizava ao mais leve toque de um passante distraído. As luzes da luminária de crochê declinaram ainda mais o humor da sala, os relâmpagos desciam do céu como um feixe de luz dourada que clareava os cantos escuros. A cadeira de balanço na aresta rangia, em parte pelo meu peso e outra por sua idade, o encosto retinha grande parte de minhas memórias. 

Meus avós

Meus avós costumavam sentar- se nela para me contar histórias. E depois, também meus pais passaram a fazê-lo. Eram esses pequenos fatores que faziam da sala, de longe, o melhor e meu favorito dos cômodos também palco de minhas mais agradáveis lembranças.

Eu estava lendo, despreocupadamente, um dos romances que guardava em meu armário. A cadeira continuava a ranger, meus pés sapateavam no assoalho velho e mal produziam som. A tempestade fazia um barulho relativamente alto, que não se diferenciava de pedras sendo jogadas no telhado e na janela. O estrépito da tormenta tinha um som característico, mas um fragor chamou minha atenção pela sua proximidade exasperada.

Algo tinha atingido a parede da casa.

O barulho

Pensei ter sido um animal desorientado ou mesmo um galho que foi derrubado pelo vento. Retomei, sem pressa, minha leitura. Mas mesmo assim minha concentração foi desviada para a janela. Ajeitei-me na cadeira, que por sua vez fez um barulho agudo em protesto à minha movimentação brusca.

Encarei as gotas, escorriam melancolicamente pelo vidro embaçado, a visão não era o que eu chamaria de clara, mas via o suficiente para saber que tinha um animal no quintal. Logo então avistei de relance algo adentrar no arbusto das orgulhosas Lanternas-Chinesas da minha mãe.

Não cheguei a me espantar, pois era recorrente a entrada de cachorros no terreno. Estava começando a ficar tarde. O relógio já batia 21:00. Resolvi deitar-me. Aproximei-me da luminária perto da janela e apaguei a luz. Caminhei apreensiva e lentamente até a cozinha, poderia me assegurar que era um cão, tinha quase toda a certeza.

Mas e se não fosse? Essa pergunta me perturbou.

A perturbação

Peguei a garrafa de leite na primeira prateleira da despensa, beberiquei um gole, estava morno, parecia estar azedo. Dei de ombros e voltei a bebericar, caminhei em direção a saída, apagando também as luzes da cozinha.

Até hoje me pergunto por que fui tão estúpido! Poderia simplesmente ter dado as costas e seguido para o quarto! Mas não! Eu fiquei e fitei a janela por mais alguns segundos. Segundos que me aterrorizaram, me traumatizaram e me fizeram perder o que eu tinha orgulho de chamar de sanidade!

A maldita janela!

No fundo do âmago de minha alma eu sabia que não era um cachorro. Mas mesmo assim fiquei para olhar o que era! O que eu vi não pode ser descrito! Um par de olhos, no meio da relva fina da parte não plantada ainda do jardim. Mas não um par de olhos qualquer! Eles eram amarelos, olhos amarelos como a capa de um livro velho e corroído pelo tempo!

Congelado

Eram vazios e qualquer um que tivesse lumes como aqueles poderia se chamar de hierofante, bruxo! Logo sucumbi ao mais profundo e bestial desespero! Eu congelei, simplesmente não poderia me mexer, não com aqueles olhos animalescos pairando sobre mim!

Logo tais abomináveis mirantes desapareceram. Provavelmente sucubiram de volta às trevas das quais vieram! Fiquei parado no batente da porta, o pânico era mais forte que eu.

Logo saí de meu estado de choque e corri para fora da cozinha, largando no chão a garrafa de leite a qual se rompeu em cacos de vidro. As escadas pareciam não ter fim. Eu agarrava o corrimão, mas isso só me ajudou a ficar com a mão cheia de farpas. 

O segundo andar

Cheguei enfim ao segundo andar. Cambaleei apavorado  até meu quarto, abri a porta. Entrei. Em meus aposentos podia me sentir seguro, meu refúgio. Havia juntamente com meu banheiro um pequeno quarto, onde mantinha uma pequena coleção de livros e algumas roupas. Tranquei-me no modesto quartinho.

 Achando que porventura estaria a salvo, adormeci embaixo de um dos gaveteiros. Despertei com um estampido extremamente penetrante e intenso, não ousei me mexer. Ouvi um bramido, um grito agudo, terrível, que só poderia ter sido exclamado por um ser excruciante em seu sofrimento provocado por mil demônios!

Um som de profunda dor!

Causada pelo mais infame flagelo!           

Acreditei que tal barulho de escárnio só poderia ter se originado de uma criatura mais que profana. Nunca infringiu a mim mesmo tantos pensamentos frívolos e imorais. Estava tão amedrontado que arranhei meus próprios braços até sangrarem, ouvia os passos da coisa se aproximando.

A criatura

Estava cada vez mais perto. Sentia meu coração martelar meu peito e o gosto amargo do vômito que subia em pequenos refluxos queimando minha garganta. Algo irrompeu a porta do meu quarto, ouvi mais um barulho e o mesmo grunhido aterrorizante, agora mais alto, devido à proximidade que o ser boçal estava do quartinho.

Ouvi o desconhecido parar rente a porta e ver seus ossos. A pele ressecada puxada, tão tensionada que seus ossos pareciam arquejar-se para fora. Sua pele tão pálida quanto um cadáver. E seus estourá-la em um só golpe! Fiquei estático, a intuição falou mais forte que o pânico. Não ousei mover um músculo sequer.

Lá estava eu, encolhido, com a criatura parada diante de mim… Que Deus tenha sua alma! Era tão horrenda quanto seus olhos. Magro ao ponto de olhos, como se pudessem ficar mais desprezíveis, empurrados para trás profundamente em suas órbitas. Exalava à morte, decomposição. Mesmo a lembrança ainda me deixa tremendamente enojado.

O torpor

O meu estado de torpor me impedia de raciocinar claramente, mas conseguia pensar o suficiente para realizar que a besta-fera enxergava apenas movimentos, como um wendigo (criatura da mitologia norte americana, conhecida por serem humanos corrompidos pelo canibalismo).

Esperei então que a criatura se ausentasse do cômodo.

Não custou muito para que logo fosse embora, apesar de ter deixado um rastro de vidro quebrado por onde passava, já que parecida não esclarecido quanto a o uso de portas.  Esperei um pouco, para ter certeza de que não voltaria.

Levantei do chão, meu desespero atrapalhado de fugir era tanto que não reparei na lixeira metálica que atingiu o chão ruidosamente. O farfalhar das folhas chacoalhadas pelo vento faziam com que me retesasse e encarasse a janela, esperando o seu semblante horrendo voltar. Finalmente pude sair do cômodo. Já não mais estava em seu campo de visão.

O quarto vazio

Fitei meu quarto, parecia vazio.

Deslizei até o umbral que o ligava até o corredor. O passadiço se mostrava, também, seguro. Meu medo era de que a descrição da criatura se mesclasse com a minha distração e acabasse em uma catástrofe. Parecia ter evoluído para matar, tirando sua visão, que parecia ser extremamente limitada.

Era quase cego.

A besta se movia com uma velocidade assustadora, era extremamente forte e sobretudo era surpreendentemente inteligente.  Parecia ter feito uma estratégia para me isolar no quarto e então atacar. Aparentava ser racional, tirando o fato da sua violência. Eu  supus que a besta fosse antropófaga, ninguém se alimenta de animais e fede a carne humana apodrecida.

A fuga

Desci as escadas tentando permanecer rente a parede e longe das bordas, com medo de que suas garras prendessem meu tornozelo. Ainda sentia a palpitação forte do coração no meu peito. Eu estava deslizando pela parede sem maiores problemas, até que meu cabelo cor de ferrugem prendeu-se em algo.     

Tentei me desprender de seja lá o que o estivesse prendendo. Estava fazendo-o com força. Tive o vislumbre dos olhos amarelos pela janela de meu quarto. O pânico se apossou de mim, tentei arrancar as mechas de ferrugem do prego.

Eu havia conseguido.

Mas o ser jazia perto demais, eu não podia me mexer. Ou acabaria morto. O ambiente empoeirado e abafado, por causa da chuva, tornava a respiração mais difícil. Parei para pensar, ouvi o tamborilar das imensas garras da grotesca criatura. Estava cada vez mais perto, quase sentia sua respiração e a podridão de seu hálito. O cheiro de cadáver apossou-se do ambiente, tive o impulso de vomitar, mas me contive. Um movimento errado e minha garganta seria mutilada.

Pouca chances

Minhas chances eram poucas e pequenas, mas ainda assim existiam e eu tentaria mesmo que morresse no processo. Não sabia como fugiria para fora sem que ele me alcançasse. Sentia seu couro roçar nas minhas roupas, ele definitivamente me deixava enojado.

O momento parecia durar para sempre, eu já estava incomodado por ter uma criatura desprezível como aquela perto de mim. Como se já não bastasse, senti uma coisa gelada e úmida encostar e se mover sobre as maçãs do meu rosto. A criatura havia, literalmente, salivado em mim.

Foi o suficiente.

O berro

Senti um grito subir pela minha garganta, pegando a criatura de surpresa eu soltei um berro de puro medo e escárnio. Lágrimas escorriam pelo meus rosto e molhavam meu pijama. A repentina cisão da criatura me causou tal espanto que corri até o fim da escadaria.

E como em um impulso de adrenalina, joguei meu livro pela janela, um belo exemplar dos contos do norte, realmente um desperdício. Analisando a situação como ela estava, na verdade a criatura era realmente semelhante a uma das menções bestiais do livro. O wendigo, mas nunca cheguei a recuperar o livro depois daquela noite, ou muito menos a ler algo sobre ‘ele’.

O frio adentrou na casa, o vento cortante me atingia como pequenos canivetes arremessados com uma extrema força. A chuva tornava minha fuga mais difícil, minha visão estava embaçada, não havia absolutamente nenhuma fonte de luz. Apenas os raios, os quais cortavam as nuvens como flechas incandescentes.

O medo

Eu estava com medo do jardim da minha própria casa, os galhos das flores e dos arbustos da minha mãe faziam a situação ainda mais desesperadora. Pareciam garras arranhando o meu braço. Por que isso está acontecendo comigo? Parei para respirar e o choro assolou a coragem que me restava. Entrei, de novo, em estado de choque ao ouvir a janela estourar completamente. Pude ver cacos de vidro voando perto o suficiente para me ferirem, eu corri e procurei abrigo nas árvores.

Encostei-me em um carvalho. Tentando ficar mais perto do portão possível. Conseguia ouvir uma mistura de respiração pesada com um sibilo arrastado. A coisa ia para o lado oposto ao meu. Pensei que quando o ser estivesse longe o suficiente talvez eu tivesse uma chance de fugir. A grama estava úmida, sentia os dedos dos meus pés descalços se entrelaçarem na sua viscosidade.

Era uma sensação calmante.

A brisa soprava, agora mais fraca. Como aquele vento frio nos fins de tardes sazonais. A chuva estava, mais para uma garoa fraca. O fato da única iluminação ser a da lua deixava tudo um pouco mais sombrio. A casa também estava apagada, dando uma impressão deveras assombrosa para os que a não conheciam de dia.

Dias felizes

No verão a casa costumava ficar cheia, a família vinha para as festas de fins de ano. Cada quarto tinha um familiar, primos, tios e mesmo parentes distantes, que só conhecemos quando já estão decadentemente velhos.

Sinto falta de dias felizes, no lugar onde moro agora a única coisa que escuto são berros de pessoas tão insanas quanto eu, em celas tão frias e tortuosas quanto a minha… Mas ainda assim não tão solitárias quanto eu.

A criatura já estava longe o suficiente. A rua não ficava a mais de cem metros do portão principal. Sabia que conseguiria. Por um momento a grama escorregou sob meus pés, mas não havia problema, pois já seriam substituídas por pedras, assim que eu chegasse no estacionamento. Meus pés doíam, pequenas incisões eram feitas a cada metro percorrido pelo solado degradado. Eu estava quase no portão.

O portão

Era de ferro, grande e sobretudo velho. Tinha detido em sua fechadura um enorme cadeado de cobre, que poderia ser aberto apenas com a chave. A qual estava em casa, na primeira gaveta do gaveteiro de mogno do lado da cadeira de balanço em frente a janela, que agora jazia em cacos na tão bem cuidada grama do quintal de minha casa. Eu estava preso. Pensei em pulá-lo, mas sabia que os quatro metros não eram tão fáceis de transpor quanto pareciam. 

Meu coração começou a martelar quando ouvi passos atrás de mim, tamanho foi meu pânico que escalei o portão em poucos pulos. Haviam múltiplos cortes, arranhões, lacerações e farpas espalhados pelo meu corpo, agora também contava com um roxo adquirido durante a descida do portão. Já me encontrando do outro lado, corri para a rua, na esperança de que encontraria um policial ou mesmo um bombeiro.

Na época não havia me ocorrido que as pessoas estranhariam ouvir uma história absurda como essa e não só me tratariam como louco como me exilariam de sua pequena “sociedade perfeita”.

O policial

Quando finalmente encontrei um oficial, contei-lhe a minha história. Obviamente fui tratado como louco. Joham, o oficial, me encaminhou para a delegacia. Onde tive que esperar a chegada dos meus pais, pois menores de idade não podiam ser internados sem que os pais assinem um documento confirmando a insanidade de sua cria.

À princípio não imaginei que meus pais seriam capazes de fazê-lo. Hoje em dia tenho apenas a lembrança de seus rostos, da casa velha, palco de tal horrenda história, do jardim florido de minha mãe ou mesmo de livros bem cuidados como os meus. Uma vez que no hospital psiquiátrico em que fui enclausurado descobri meu abismo, a loucura!

A criança insana

O fato de ninguém acreditar em mim! E com pesar digo ela retornará por mim! Desta vez não terei chance! Por que a besta veio por mim? Não sei. O abismo, a pior sensação que alguém pode vivenciar é você ter certeza de algo e isso desmoronar diante de você! Como foi o meu caso, tinha plena certeza de que monstros não existiam.

Isso se desfez diante de mim.

Talvez eu seja insano.

Talvez eu seja completamente louco. Porém uma vez que, no asilo mental em que fui encarcerado não tenho direito nem a água devidamente tratada, não acho que sei dizer qual conceito de insanidade me cabe. Só espero sobreviver mais uma noite.

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